Cada grão de minério carrega uma história que começa nas minas de Itabira. Por trás de cada vagão carregado e de cada tonelada embarcada, existe uma complexa cadeia de processos que transforma a matéria-prima em um produto de elevado valor para a indústria mundial.
Ao deixar seu local de origem, o minério percorre um caminho que muitos desconhecem. As rochas são britadas, trituradas, classificadas, beneficiadas e submetidas a rigorosos controles de qualidade. Cada etapa agrega valor ao produto final, tornando-o muito diferente daquele que saiu das montanhas itabiranas.
Nada acontece por acaso. Todo o processo é cuidadosamente planejado para garantir eficiência operacional, segurança e qualidade. O objetivo é atender aos mais altos padrões exigidos pelo mercado, assegurando que o minério alcance seu destino com as características necessárias para sua aplicação industrial.
Entretanto, existe uma questão que raramente é colocada no centro do debate: por que a maior parte da tecnologia, da transformação industrial e da geração de valor permanece distante do território onde o minério é extraído?
Ao longo do processo produtivo, o minério recebe investimentos em pesquisa, inovação, beneficiamento e industrialização que multiplicam seu valor econômico. Porém, grande parte dessa riqueza é apropriada em outros territórios, enquanto a cidade de origem permanece, muitas vezes, restrita ao papel de fornecedora da matéria-prima.
A reflexão que se impõe é simples: quais medidas poderiam ser adotadas para concentrar parte dessa tecnologia e dessas etapas produtivas em Itabira? Se a transformação gera riqueza, emprego qualificado, desenvolvimento tecnológico e arrecadação, seria justo que uma parcela maior desses benefícios permanecesse no local de procedência do minério.
Sob a ótica da mais-valia, o valor não está apenas no recurso natural extraído, mas também no trabalho, no conhecimento e na tecnologia agregados ao longo da cadeia produtiva. Quando essas etapas acontecem longe do território de origem, a maior parte dos ganhos econômicos também se desloca para outros centros.
Por isso, pensar o futuro de Itabira exige ir além da mineração extrativa. Significa discutir políticas capazes de atrair centros de pesquisa, indústrias de transformação, inovação tecnológica e formação profissional especializada. Significa transformar a cidade não apenas em exportadora de minério, mas em protagonista da riqueza gerada a partir dele.
Afinal, se o minério nasce em Itabira, é legítimo questionar por que uma parcela maior do valor produzido ao longo dessa cadeia não pode permanecer onde tudo começou.
Autoria: José Norberto de Jesus é itabirano, produtor cultural, militante negro, graduado em Estudos Sociais e pós-grraduado em MBA Gestão de Projetos

Por José Norberto de Jesus

